Origem e formação
Santo Ildefonso nasceu em Toledo, na Espanha visigótica, por volta do ano 607, em uma família nobre e profundamente cristã. Desde a infância demonstrou singular amor à oração e à pureza. Seus pais, desejosos de ver o filho servir a Deus, o educaram na fé e nas boas letras, oferecendo-lhe sólida formação intelectual e espiritual.
Ainda jovem, Ildefonso sentiu o chamado à vida monástica. Ingressou no mosteiro de Agali, próximo a Toledo, onde se destacou por sua disciplina e zelo pela leitura das Sagradas Escrituras e dos Padres da Igreja. O estudo, para ele, era inseparável da oração - acreditava que "quem lê deve antes amar, e quem escreve deve antes crer".
Ordenado sacerdote, Ildefonso logo foi escolhido como abade de Agali, cargo que exerceu com humildade e firmeza. Era um homem de profunda contemplação, mas também de prudente governo, atento às necessidades espirituais de seus monges e à fidelidade à Regra.
Amor e defesa da Virgem Maria
Entre as virtudes de Santo Ildefonso, a mais notável foi sua extraordinária devoção à Santíssima Virgem Maria. Desde os tempos de monge, dedicava longas horas à meditação sobre o mistério da Maternidade Divina.
Sua obra mais célebre, intitulada De Virginitate Sanctae Mariae contra tres infideles ("A Virgindade de Santa Maria contra três incrédulos"), é um verdadeiro monumento da teologia mariana. Nela, Ildefonso defende com vigor e clareza a virgindade perpétua de Maria, contra os que ousavam duvidar desse mistério.
Foi um dos primeiros doutores do Ocidente a exaltar o papel de Maria como Mãe e Advogada da humanidade, atribuindo-lhe o título de "Rainha e Senhora da Igreja".
Esse amor filial à Mãe de Deus marcou toda a sua vida e o fez conhecido como o "Doutor da Virgindade de Maria".
Arcebispo de Toledo
Em 657, por vontade do clero e do povo, e sob a aprovação do rei Recesvinto, Santo Ildefonso foi eleito arcebispo de Toledo, a sede primacial da Espanha.
Assumiu o cargo com relutância, preferindo o silêncio do claustro, mas submeteu-se à vontade divina. Como pastor, foi modelo de prudência, austeridade e zelo apostólico. Reformou o clero, incentivou a liturgia, promoveu a caridade e fortaleceu a unidade da Igreja espanhola.
Sob sua direção, o Concílio de Toledo reafirmou a doutrina católica e condenou as heresias remanescentes do arianismo, que ainda ameaçavam algumas regiões do reino visigodo.
Foi também defensor da independência espiritual da Igreja diante do poder civil, ensinando que o rei devia governar o povo com justiça, mas sem interferir nos assuntos sagrados.
A aparição da Virgem Maria
O episódio mais célebre da vida de Santo Ildefonso ocorreu em 18 de dezembro de 665, na basílica de Santa Maria de Toledo.
Naquele dia, o arcebispo, acompanhado do clero e dos fiéis, cantava com grande fervor o ofício em honra da Mãe de Deus. Subitamente, um fulgor celestial encheu o templo, e a Santíssima Virgem apareceu sobre o altar, cercada de anjos e vestida de esplendor.
Todos caíram por terra, tomados de temor e reverência. Maria então chamou Ildefonso, que se aproximou tremendo. A Virgem, com voz suave e maternal, disse-lhe:
"Tu me honraste na terra, e eu vim do Céu para te recompensar."
Em seguida, colocou-lhe sobre os ombros uma túnica branca, símbolo da pureza e da graça, e desapareceu entre cânticos de luz.
O povo, maravilhado, reconheceu naquele fato uma confirmação divina do amor de Ildefonso pela Mãe de Deus. Desde então, o dia 18 de dezembro ficou marcado como a Festa da Expectação do Parto da Virgem Maria, celebrada em toda a Espanha e, mais tarde, difundida em diversas partes da Igreja.
A túnica entregue por Maria foi guardada com veneração na catedral de Toledo durante séculos, até se perder em tempos de invasões.
Últimos anos e morte
Santo Ildefonso continuou a governar a Igreja toledana com santidade e sabedoria. Era admirado por reis e súditos, mas permanecia humilde, servindo com mansidão e constância.
Passava grande parte das noites em oração diante do altar de Nossa Senhora, meditando os mistérios da Encarnação e da Redenção.
Em 667, após celebrar a Missa e dar sua última bênção ao povo, recolheu-se à oração e entregou serenamente a alma a Deus. Tinha cerca de sessenta anos.
Seu corpo foi sepultado na basílica de Santa Leocádia, em Toledo, e logo começaram os testemunhos de milagres e curas obtidos por sua intercessão.
Legado e culto
O nome de Santo Ildefonso foi incluído nos antigos martirológios hispânicos e romanos. A Igreja celebra sua festa em 23 de janeiro, data que recorda o dia de sua entrada no Céu.
Foi venerado especialmente na Espanha, em Portugal e nas regiões sob influência da antiga liturgia moçárabe. Seu culto espalhou-se também pela França e pela Itália.
Toledo conserva até hoje sua memória com especial devoção: a catedral primacial guarda um magnífico altar dedicado à Virgem Maria, com imagens do milagre da túnica e do santo ajoelhado diante da Mãe de Deus.
A espiritualidade de Santo Ildefonso é inteiramente mariana. Ensinava que amar Maria é participar do amor de Cristo, e que quem se coloca sob sua proteção nunca se afasta da verdade do Evangelho.
Escritos e pensamento
Além de sua obra mariana, Ildefonso escreveu tratados litúrgicos e pastorais, nos quais demonstrou profundo conhecimento das Escrituras e dos Padres da Igreja, especialmente Santo Agostinho e São Jerônimo.
Defendeu a virgindade consagrada como sinal de total entrega a Deus e destacou o valor da oração contínua como alimento da alma.
Sua linguagem é clara e serena, impregnada de devoção e sabedoria. Por isso, a Igreja o reconhece como um dos grandes Doutores da Igreja Espanhola, ao lado de Santo Isidoro de Sevilha e São Leandro.
Oração a Santo Ildefonso
"Ó Santo Ildefonso, doutor e servo fiel da Santíssima Virgem Maria, alcançai-nos um amor puro e perseverante à Mãe de Deus, modelo de humildade e fidelidade. Fazei que, iluminados pela vossa doutrina e fortalecidos pelo vosso exemplo, defendamos sempre a verdade da fé e vivamos em constante comunhão com o Senhor. Por Cristo, nosso Salvador. Amém."

